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Sexta-feira , 16 de Junho de 2017 - 22hs16

política

A vingança de Temer, que, na corda bamba, ganhou sobrevida no TSE, mas terá desfecho imprevisível

Fonte: Liberato Póvoa

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O presidente Temer, que sempre vendeu a imagem de conciliador, coerente e sério, de repente escorregou nas grimpas de um precipício e caiu no absoluto descrédito que carimba a ficha de quase todo político. E, como se não bastasse, agora assumiu a postura explícita de revanchista da mais baixa categoria.

Depois de haver sido delatado por Joesley Batista em cabeludos atos de corrupção, que respingaram em próceres, antes intocáveis, como Aécio Neves, a primeira coisa que Temer fez, depois dos vídeos e áudios exibidos, foi fazer uma ofensiva contra  a  JBS: promoveu uma grande retaliação econômica como passo inicial, e os representantes da empresa disseram ao Ministério Público Federal que a Caixa Econômica Federal, sempre generosa nos financiamentos, teria suspendido, de forma repentina, o crédito da empresa na instituição; dias atrás, o Governo baixou medida provisória que, entre outras coisas, aumenta de forma exponencial as multas cobradas pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM) e o Banco Central (BC); no caso da CVM, é evidente que é uma retaliação do governo ao fato de os donos da J&F, “holding” que detém o controle acionário da JBS, terem feito delação premiada que compromete  Michel Temer até o fundo da alma.

Até concordo com essas medidas restritivas de crédito, pois visam ao combate à corrupção, mas, se foram tomadas só agora, têm o sabor de retaliação. Por que o Governo não as tomou antes, para estancar a sangria de dinheiro público no BNDES e na Caixa? E o Brasil amarga um logro de vários bilhões em cima do BNDES, que eu já previra há mais de dois anos.

O jornal “Valor Econômico” informou que um projeto de lei com substanciais mudanças no sistema de financiamento e de combate às especulações financeiras estava pronto há muito tempo, mas só saiu agora, como medida provisória, diante da suspeita de que a JBS teria usado informação privilegiada para especular com suas próprias ações na Bolsa de Valores, na véspera da divulgação da delação. Fontes da JBS dizem que o grupo está sofrendo uma "devassa" por parte da CVM e da Receita Federal, como represália pela delação.

E Temer não deixou nem esfriar as rebarbas da delação no vídeo: logo no dia seguinte, houve a instauração de cinco processos administrativos pela CVM para apuração desses fatos, e numa ação coordenada com a CVM, a Polícia Federal, em seguida, deflagrou contra a JBS a “Operação Tendão de Aquiles”, para apurar o uso indevido de informações privilegiadas por parte das empresas JBS e FB Participações em transações de mercado financeiro ocorridas entre abril e maio de 2017, cumprindo três mandados de busca e apreensão e quatro de condução coercitiva nas empresas do grupo expedidos, a pedido da PF, pela 6ª Vara Criminal Federal de São Paulo.

Temer, depois que foi divulgado ter ele usado um jatinho daquela empresa em voo de oba-oba com a família para Comandatuba-BA, desmentiu, inocentemente:  depois de dizer que o jatinho utilizado era da FAB, ele voltou atrás e declarou que de fato havia usado um jatinho particular, mas não sabia a quem pertencia, como se não constasse em letras graúdas no próprio avião a identificação “PR-JBS”, e depois o plano de voo e o agradecimento feito por ele a Joesley pelo buquê de rosas enviado à sua mulher desconstituiu a farsa montada. Agiu como um qualquer, que, à beira da estrada, pega uma carona, sem saber quem o acode, postura inadmissível para um presidente da República, que está se notabilizando pelas controvertidas declarações e mal contadas igual a caçadas de onça sem cachorro.

Depois do julgamento do TSE, inconfessavelmente pré-fabricado pelo Planalto, a estratégia montada agora é deflagrar uma ofensiva contra o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, e os rumos da Lava Jato, que estão tirando o sono do Planalto. Para "desconstruirdesqualificar Janot e também o ministro Edson Fachin, relator da Lava Jato no STF, Temer tem como certo o apoio do Congresso, na tentativa de impedir o avanço de provável denúncia contra ele. Atitude típica de mafioso.

E mostrando que Temer está baixando ainda mais o nível, uma reportagem da revista “Veja” publicada no último dia10, afirma que o governo utilizou a Agência Brasileira de Inteligência (Abin) - o serviço secreto brasileiro - para investigar o relator da Lava Jato, e mesmo diante dos desmentidos de Temer, a ministra Cármen Lúcia, o procurador-geral da República e a Associação dos Juízes Federais do Brasil reagiram com indignação, e a presidente do STF disse que, se confirmada, a investigação seria própria das ditaduras. O Governo teria acionado a Abin para bisbilhotar a vida do ministro Fachin com o objetivo de encontrar qualquer detalhe que possa fragilizar sua posição de relator da Lava Jato, informação confirmada por “um auxiliar do presidente Michel Temer, que pediu para se manter no anonimato porque não está autorizado a falar publicamente sobre o assunto”.

Mas a absolvição do presidente pelo TSE – que já estava escrita - não quer dizer, em absoluto, o fim da crise: o Ministério Público Eleitoral (MPE), com certeza, não vai ajuizar inócuos Embargos de Declaração no próprio TSE, que apenas protelará o trânsito em julgado; vai recorrer direto ao STF, logo após a publicação do acórdão. E com esta história de mandar a Abin fuxicar a vida de um de seus membros pode acirrar o “espírito de corpo” do STF, e o resto pode-se prever. O PSOL antecipou-se ao MPE e, antes mesmo da publicação do acórdão, já pediu ao STF a anulação da pantomímica sessão. O relator será o ministro Lewandowski, que tem um histórico pouco confiável.

Independentemente disso, e com denúncia a ser oferecida pela PGR, Temer vai precisar de 172 votos na Câmara para barrá-la. E infelizmente é provável que consiga. Ministros próximos ao presidente disseram ao jornal “O Estado de São Paulo” que a maioria dos deputados, com justificável receio da Lava Jato, não vai fortalecer Janot nem Fachin nessa “queda de braço”, em que Temer é investigado por corrupção passiva, obstrução de Justiça e participação em organização criminosa.

Mas como a política é sempre a mesma, o PSDB ameaçou deixar a base aliada, e o bloco conhecido como “Centrão”, que se compõe de centena e meia de deputados, agora cerra fileiras em defesa de Temer, apresentando-se como "alternativa" aos tucanos e pode ser o fiel da balança para salvar o presidente de eventual cassação do mandato em razão da futura denúncia, já que conseguiu se livrar no TSE.

Com os últimos acontecimentos, mesmo com Temer fortalecido pela absolvição no TSE, o PSDB desistiu do desembarque, uma ameaça que cheirava a moeda de troca para cargos e verbas, pois brasilidade e espírito público não estão no cardápio de quase nenhum político.

A garantia de governabilidade dada pelo bloco a Temer espera, ainda, recompensa com cargos em estatais e diretorias de bancos, para continuar a roubalheira exposta no Governo. E ainda que o PSDB não deixasse a base agora, o “Centrão” ficaria ao lado de Temer, à espera do melhor momento para ampliar o seu espaço. O toma-lá-dá-cá (que o líder Jucá batizou de “reciprocidade”) sempre funcionou: no Brasil: para conseguir o que querem. os políticos mudam de partido como trocam de camisa. É como diz o experiente Abrão Lima, político no Tocantins, partido político é igual a ônibus coletivo: em cada parada descem alguns e sobem outros’.

Se o Governo continuar com a política de só investigar quando é cutucado por uma delação, vamos teimar em viver sendo roubados, pois diante do que a JBS está merecidamente passando, quem é que vai querer denunciar agora os podres do Governo?

 

 

(Publicado no “Diário da Manhã” de 16/06/2017)


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