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Iris, o maior comunicador de Goiás

Em todo o tempo que convivi diariamente com Iris Rezende na prefeitura de Goiânia, nunca o vi repetir um discurso. Sei que isso soa estranho aos habituados a ouvir e repetir que Iris contava sempre as mesmas histórias. Também eu pensava assim, embora leia e acompanhe a política goiana desde antes de minha formatura, lá em 1992. Estar próximo e poder prestar atenção a cada gesto e ato de Iris me permitiu ver mais longe. Enxergar o seu jeito e o significado de seus atos.

Iris tinha um repertório grande de histórias, que de fato repetia, a cada oportunidade – é como passei a entender a sua visão –, com mais ênfase, mais palavras, menos atenção, no início ou no fim, deixando de lado uma ou duas, trazendo novas que não tinha mencionado na vez anterior. Aos poucos, ficou claro pra mim: fazia assim com método, jamais de forma aleatória. De acordo com a plateia, com o seu momento, a mensagem que queria passar.

Ele jamais perdia o fio da meada. Aos 86 anos, começava e terminava um discurso olhando firme para quem estava à sua frente. Como se mirasse no olho de cada um. Muitas vezes, eu via darem de ombros apenas os políticos, adversários em especial, resmungando que era mais do mesmo. Nunca era. Os professores, enfermeiros, os servidores de órgãos variados, estes ouviam tudo, olhando hipnotizados seus gestos – era um homem de gestos largos -, ouvindo sua voz firme como se fossem eles os eleitos, os privilegiados por estarem ali.

E aqui vai por terra, no meu ‘intindimento’, outra ideia errada sobre ele, o que já me era uma convicção e a convivência só a reforçou: a de que ele não gostava ou não sabia se comunicar. A comunicação entre Iris e seu povo – e digo seu porque ele os atraía pro coração – sempre foi única. Ele era um comunicador por excelência, se me permitem usar uma expressão popular, feito ele. O fato de ter aprovado um valor menor para investimentos em mídia, não quer dizer nada além de uma decisão de gestor, que zelava pelos recursos públicos e não via sentido na autopromoção.

Iris se comunicava da forma mais eficiente que há na política. Com ações. Ele fazia, deixava de fazer, tinha atitudes e em cada ocasião passava uma mensagem. Se na canetada era duro, em suas entrevistas ele calibrava, ou duro para reforçar, ou calma – brincalhão, ocorria de ser –, para serenar. Ele trazia a atenção para ele, e dava o recado que queria. Tinha peito e estratégia para inclusive criar rodamoinho que depois amortecia. No auge do corte da contenção de gastos durante a pandemia, cortou o cafezinho com pão-de-queijo que servia no gabinete, uma marca registrada sua. Reforço de caixa? Rabugice? Gesto.

O maior veículo de comunicação de Iris sempre foi Iris. No início, eu não entendia por que ele três, quatro, cinco vezes por semana chamava todo o secretariado para acompanhá-lo na inauguração de pequenas praças em bairros afastados, ou parquinhos, obras pequenas. Uma vez, contou a motivação: com isso, os secretários tinham que sair o conforto de suas salas e ver a cidade e a importância dessas pequenas realizações na vida das pessoas da periferia. Nesses momentos, Iris conversava com moradores, chamava um ou outro auxiliar, mandava fazer isto ou aquilo, interagia e nos fazia interagir com a gente que precisa dos serviços do poder público de uma forma bem diferente dos que moram no centro.

Ele mantinha ainda na gestão as vistorias de obras. E todos os principais auxiliares também tinham que ir. Quando um não ia nesses compromissos e não avisava, ele cobrava depois. Era encontrar o ausente em evento posterior, e lá vinha o “uai, não te vi lá”. Assim, sutil e ao mesmo tempo como um soco no estômago. Ninguém faltava a outra agenda: os mutirões. Todos ficavam por perto porque a qualquer momento ele podia chamar e passar uma demanda ou pedir para atender um cidadão. Brincávamos com isso. Mas não com serviço. Outra coisa: os momentos de encontro constante de secretários serviam para aproximar a equipe, mostrar que ninguém era “autoridade”, e sim iguais na tarefa e ao povo, e para despachos normais entre um e outro, o que agilizava decisões da gestão.

Na pandemia, não teve dia que nós, ou sua família, conseguíssemos tirar Iris de ir para o Paço. Octogenário, ele estava no grupo de risco. Explicou: o povo não podia achar que o seu prefeito tinha abandonado a cidade, e por medo. Ele não pegou covid. E não saiu de perto do perigo. E o que dizer da repetição que fazia do motivo que o levou ao quarto mandato? Ele enfatizava que entregou uma prefeitura redondinha ao sucessor, quando decidiu renunciar para se candidatar a governador, mas que este não dera conta. Por isso, sentiu-se na obrigação de voltar para consertar a prefeitura. Era isso: simples, objetivo, uma espécie de mantra reiterado à exaustão. Direto ao ponto e uma razão de fácil compreensão para o povo que mais elevava seus feitos do que diminuía o antecessor, cujo nome nem era pronunciado.

Em recente entrevista, a filha dele, Ana Paula, contou uma história que também resume bem o seu jeito, e mostra algo bem maior. Em campanha pelo Estado, ele teimava em fazer discursos de 40 minutos mesmo para plateias de dez pessoas. Os auxiliares a encarregaram, então, de negociar com ele para diminuir esse tempo. Ela conversou com ele, mas no discurso seguinte, debaixo de chuva, ele não diminuiu o número de palavras. Sem que ela perguntasse depois, ele explicou: um, dez ou mil, todos foram ali para ouvi-lo e ninguém merecia menos do que tudo dele.

Iris não era um comunicador oportunista. Não agia com esperteza. O que fazia era inato, estava no seu DNA como respeito e integridade pessoal. Sua comunicação era feita com base em valores e princípios. Funcionava porque também carregava a sabedoria de seus anos na vida pública. Iris é o maior comunicador político que conheci. O maior político. Aquele que ensina com palavras e com o silêncio. O que está sempre à frente porque enquanto o subestimam e lhe torcem o nariz, ele está tirando ouro da sabedoria e carisma do coração. Iris comunicava com a vida, e mesmo de onde está, continua mandando mensagens muito maiores que o fim. Iris é infinito. (Vassil Oliveira/Tribuna do Planalto)

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